Aprendendo com “The Hundred-Foot Journey”

Eu tenho assistido muita coisa nos últimos tempos, sendo grande parte do conteúdo formado por vídeos didáticos sobre técnica fotográfica ou documentários tendo a fotografia como contexto. Porém, o que me chamou atenção de modo particular recentemente foi um filme despretensioso que entrou no catálogo da Netflix há quatro semanas, mas que tem uma direção de fotografia tão impressionante que eu voltei a deixar a janelinha em tela cheia quando os créditos começaram, só pra saber o nome do(a) responsável.

O filme é “The Hundred-Foot Journey” ou “A 100 Passos de um Sonho”, na tradução em português. Uma colega indicou em seu perfil do Facebook comentando ser um filme “feel good” – Agora que voltei a ler o post, percebi que ela também o descreveu como “visualmente lindo”. Pudera! A cinematografia é de ninguém menos que Linus Sandgren, o cara do “La La Land”. Aham, o do Oscar. E também o de “Joy” ❤ , o de “American Hustle”… Imagina minha boa surpresa!

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Linus Sandgren com estatueta por La La Land. Fonte: http://gaddisvisuals.com/oscarcinematographywinner2017/

Juro que é impossível passar ileso pela beleza de cada tomada e transições, o cuidado que tiveram é de esborrar da tela. Sabe quando o roteiro é previsível, mas tudo é tão bem feito, principalmente no sentido visual, que você assiste até o final porque é suave e enche os olhos? Pronto.

[ATENÇÃO: CONTÉM SPOILER!] O longa de 2014 conta a história de uma família indiana apaixonada por comida, que muda-se para a Europa após um incêndio no seu restaurante em Mumbai. Eles acabam se estabelecendo em um vilarejo da França e compram um antigo restaurante deteriorado, situado logo à frente de um classudo chamado Saule Pleureur, que tem uma estrela Michelin e uma dona inicialmente intragável, que transforma a abertura do novo restaurante dos indianos numa guerra. No entanto, um dos filhos tem um talento especialmente apurado na arte de cozinhar e contra as tradições familiares, também quer aprender sobre a cozinha francesa. Com a ajuda da jovem sous chef do Saule, ele acaba se instruindo e consegue que a dona do restaurante chique o contrate. Daí, misturando a culinária dos dois países, ele ajuda o restaurante a alcançar a segunda estrela Michelin e aceita a oferta de um grande restaurante de Paris, que busca a terceira. No final, ele volta à cidadezinha e ficamos sem saber se ele conseguiu o reconhecimento máximo para o restaurante da cidade luz, porque ele ignora a ligação do resultado e diz que conquistará a terceira estrela para o próprio Saule Pleureur, do qual se torna sócio.

Dado esse resumão objetivo, esclareço que o filme é extremamente poético e sutil, principalmente quando se trata de ingredientes e da arte gastronômica. Ah, claro que tem romance e uma relação familiar muito bonita dando recheio também!

A paleta escolhida para o filme, para mim, foi certeira. Tem muito azul, cinza, verde e marrom, marcando o que eu absorvi como “aura campestre” contrastando com detalhes de amarelo e vermelho, sendo os azuis e amarelos bastante explorados em conjunto. Senti como vendo a França sóbria e austera sendo pintada pelo colorido quente e permissivo da Índia a cada quadro. Também amo low-key e adorei o uso da subexposição nas cenas. Fiz miniaturas pra mostrar:

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Amo a luz dessa cena!

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Essa é de uma sequência que acho linda, pela harmonia inteira. O mais interessante é ver a evolução dela até um pôr-do-sol fantástico!

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Outra cena que sou apaixonada! Ela acontece no mercado da cidade e a solução de lançar o “reflexo” da personagem numa balança para ter ambos em um único plano é genial!

Adoro como os diretores não tem problema algum em enquadrar as fontes de luz, dando flare ou não:

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E as molduras? Não perdem a chance!

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Porém, nada ganha para os quadros com pouca luz:

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E tem duas cenas, especialmente, que acho maravilhosas nesse sentido:

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Nesta, o personagem está criando um prato inovador. Quando pensamos em ideias, qual o primeiro símbolo que vem à cabeça? Aham, lâmpadas! E luzes, muitas luzes de uma Paris reconhecidamente iluminista no fundo. Tá bom? Não, tá pouco. Acrescenta uns reflexos. ❤

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Prato diferente criado, vamos mostrá-lo como? Vamos filmar reflexos! ❤

Logo, também podemos concluir que a receita do sucesso é…?

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Reflexos!!! ❤ 😀

Escrevi isso tudo para incitar quem gosta de fotografar a prestar atenção e tentar identificar como os profissionais utilizam as soluções disponíveis de luz e cores fora do âmbito da fotografia pura, como em filmes, pinturas, desenhos e representações em geral, porque isso realmente faz a gente enxergar diferente. Terminei esse filme renovada e arrisco dizer que aprendi muito mais com ele do que com os vídeos técnicos. Entender no que os diretores pensaram quando filmaram uma cena, principalmente no que quiseram passar com os recursos de imagem utilizados, faz a gente ir além tanto no entendimento da obra, quanto na nossa própria forma de escolher o quê e como fotografar. O melhor é que dá pra ter esse olhar atento com aquelas nossas séries preferidas também! Bora?!

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